Capítulo 1
O vale
Longe daqui, depois das montanhas que só aparecem de noite, existe um vale pequeno e quieto. Os pinheiros são altos, o riacho é raso e, em cada galho, mora uma lanterna.
Não são lanternas comuns. Dentro de cada uma dorme uma estrela. Estrelas também se cansam, sabe? Passam a noite inteira brilhando lá em cima, e às vezes o brilho vai ficando fraquinho, fraquinho, até que elas escorregam do céu.
Quando isso acontece, elas caem no Vale das Lanternas. E alguém do vale sempre vai buscar.
Capítulo 2
A torre
No meio do vale fica a Torre das Lanternas. É ali que as estrelas cansadas descansam, cada uma numa lanterna de vidro, até ficarem fortes de novo para voltar ao céu.
Quando uma lanterna começa a brilhar mais forte, todo mundo sabe: aquela estrela está pronta. Ela sobe devagar, devagarinho, e o vale inteiro para para olhar.
Capítulo 3
A madrugada do Tobias
Quando a última lanterna da torre se acende, o forno do Tobias já está quente. Ele sova a massa devagar, cantarolando baixinho para não acordar ninguém.
Dizem que o cheiro do pão de mel sobe até as nuvens e ajuda as estrelas cansadas a acharem o caminho de volta. O Tobias não confirma nem desmente. Só sorri e oferece mais um pedaço.
Capítulo 4
O mapa da Lina
Na casa da árvore, a Lina trabalha na janela redonda, com uma lamparina acesa e um carretel de linha sempre por perto. Cada estrela que cai vira um pontinho dourado no mapa.
Quando alguém novo chega ao vale, é ela quem tira as medidas primeiro. "Todo mundo aqui tem o mesmo corpo de pano", ela explica, "então toda roupa serve em todo mundo. É assim que a gente divide."
Capítulo 5
As cartas do Pipo
A bolsa do Pipo pesa pouco e carrega muito: um recado do Tobias, um pedaço de mapa da Lina, um "volto já" do Brasa. Ele sai do correio saltitando e volta ao anoitecer, com as orelhas cheias de novidade.
Toda carta do vale tem uma estrelinha dourada no envelope. É a marca do Pipo, e quer dizer: alguém pensou em você hoje.
Capítulo 6
O sopro do Brasa
Os outros dragões soltavam labaredas. O Brasa tentava, tentava, e saía só um bafinho quente, de chá recém-passado. Um dia, uma estrelinha caiu tremendo de frio na beira do lago. Ninguém sabia o que fazer.
O Brasa chegou perto e soprou, bem devagar. A estrela parou de tremer, abriu um olho e sorriu. Desde então ele mora numa caverna morna perto do lago e é chamado toda vez que alguma estrela chega cansada.
Capítulo 7
A noite sem lua
Numa noite sem lua, uma estrela caiu mais longe que as outras, num ninho de musgo do outro lado da Ponte das Nuvens. Quando o Brasa chegou para aquecê-la, ela já tinha virado alguém: uma menininha lilás, de orelhas caídas, olhando tudo com espanto.
Os moradores deram a ela um pijama de noite estrelada, para não sentir saudade do céu. E deram também um nome: Lume, porque onde ela está, a noite fica um pouco mais clara.
Capítulo 8
E toda noite
Hoje o vale continua igual. O Tobias acende o forno, a Lina anota onde caiu cada estrela, o Pipo leva os recados, o Brasa aquece quem chega com frio e a Lume brilha um pouquinho mais quando está feliz.
E se um dia você olhar para o céu e vir uma estrela escorregando, não se preocupe. Ela está só indo descansar. Alguém do vale já está a caminho.